João Pereira Coutinho, impagável

 
 

Não pretendo intrometer-me na vida política do país vizinho. Mas posso enviar um abraço comovido a "nuestros hermanos"? Segundo leio, o Parlamento espanhol concedeu certos direitos legais aos grandes macacos, como os gorilas ou os orangotangos. Para os espanhóis, as diferenças entre eles e os macacos são mínimas, provavelmente nulas, e isso permite festejar os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos do Homem com um alargamento dos ditos direitos para os nossos primos mais distantes. O direito à vida e à liberdade, por exemplo, fundacionais na Declaração de 1948, serão cumpridos à risca na proibição de usar macacos para testes médicos, espectáculos circenses, fins publicitários ou programas televisivos. Infelizmente, os espanhóis não foram suficientemente ousados, libertando os chimpanzés dos zoos e permitindo que, no estrito exercício dos seus direitos, eles pudessem passear-se livremente pela Gran Via e fazer compras no El Corte Inglés.

 

Aliás, por mais generosa que seja a medida, existem falhas imperdoáveis. Desde logo porque o direito à vida e à liberdade não esgota todos os direitos à disposição da Humanidade. E não se entende por que motivo os espanhóis se ficam por direitos básicos sem acautelar, igualmente, direitos sociais, económicos e mesmo culturais. Se os macacos são proibidos de trabalhar no circo ou na televisão, espera-se que o Estado espanhol esteja disposto a pagar subsídios de desemprego a todos os macacos que se encontrem em situação de precariedade laboral. Como se espera que o Estado espanhol tenha a sensibilidade necessária para garantir a cada macaco o acesso a uma banana justa em troca de um trabalho dignificante. Que trabalho?

 

Uma vez mais, não pretendo intrometer-me. Mas não me repugnaria que os macacos pudessem ser eleitos para o Parlamento e, quem sabe, para o próprio Palácio da Moncloa. Seria, aliás, uma bela forma dos grandes símios retribuírem a gentileza dos seus primos: trabalhando lado a lado com estes para uma Espanha verdadeiramente moderna.

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