Vacas de Presépio

 

Nariz Gelado:

Segundo pesquisa do Datafolha divulgada hoje, 86% dos moradores de São Paulo e do Rio de Janeiro aprovam a lei seca. E eu fico impressionada com a vocação do brasileiro para implorar que o Estado lhe conduza no garrote porque ele, o brasileiro, não é capaz de cuidar de si mesmo.

Na minha opinião – pessoal e intransferível, sempre é bom lembrar – a pesquisa do Datafolha revela que 86% dos moradores de São Paulo e do Rio são uns bananas. Para evitar os males causados por uma minoria irresponsável, eles topam abrir mão dos seus direitos.

Aposto que nenhum destes bananas fez qualquer coisa para garantir que a lei anterior fosse respeitada. Nenhum deles exigiu, antes, que quem fosse pego com mais de 6 decigramas de álcool no sangue recebesse punição tão dura quanto perder a carta por um ano ou, em casos mais graves, ser preso. Agora eles estão achando lindo ter uma vida pautada por bêbados irresponsáveis. Estão adorando que todos sejam tratados como alcoólatras. Isso sem falar na anuência dos idiotas que, como eu, não bebem mais do que um cassis no mamão e que, agora, se dispõem a dar carona para a cambada que entorna.

Pois saibam que, de minha parte, já estão todos avisados: quem beber que pague um táxi. Era só o que faltava eu, além de ficar sem o meu bombom de licor por conta desta turma, ainda ter que virar motorista nas horas vagas. De mais a mais, se ainda não deu para notar, estou com o meu saco bem cheio de gente sem noção de cidadania, democracia e direitos individuais. Estou de saco bem cheio de gente que está sempre disposta a ajoelhar para o Estado; a pedir que o Estado lhe imponha limites tão desmedidos quanto a sua falta de controle.

Primeiro foi o cigarro. Depois, aquela tentativa – medianamente frustrada – das armas. Agora é o álcool. E somente o álcool porque, notem bem, o cara pode percorrer toda a Via Dutra travado de cocaína ou chapado de maconha sem que a polícia o importune – e se importunar, ele, como "usuário", receberá uma pena bem mais leve do que se tivesse consumido um criminoso prato de sagu.

Diante de tal realidade, resta aguardar pelo momento em que, sob a alegação de que os males da obesidade custam caro ao Estado, seremos obrigados a abrir mão de uma picanha gorda. E o sujeito um pouco acima do peso ideal, então, será repreendido pelos garçons no almoço de domingo – sob os aplausos deste rebanho de vacas de presépio.

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A DITADURA DO TSE 1 – Tribunal quer agora censurar a Internet. Vamos para a Coréia do Norte. Lá seremos livres!

 
 
Vocês imaginam o que aconteceria se algum juiz, nos Estados Unidos — aquela democracia irrelevante, vocês sabem… — resolvesse impedir um jornalista ou qualquer cidadão de expressar, pouco importa por que meio, uma opinião política? A decisão não duraria cinco minutos, e o valente seria desmoralizado. A razão é simples: a chamada Primeira Emenda proíbe a censura. No Brasil, vejam nos posts abaixo, o TSE decidiu criar restrições à divulgação de informação jornalística sobre os candidatos na Internet. Também quer proibir manifestações individuais sobre candidaturas em blogs e páginas de relacionamento.

Como assim?

Uma resolução do tribunal equipara a Internet às televisões e às rádios, que são concessões públicas. As emissoras não podem expressar opiniões sobre candidatos e têm de garantir igual tempo aos postulantes. Jornais e revistas não estão submetidos a essas restrições. Eu poderia, por exemplo, escrever um artigo na VEJA criticando este ou aquele candidatos, mas estaria impedido de reproduzir tal artigo no meu blog. É ridículo.

É uma piada funesta.

Falei em Primeira Emenda? O que ela diz mesmo? “Congress shall make no law respecting an establishment of religion, or prohibiting the free exercise thereof; or abridging the freedom of speech, or of the press; or the right of the people peaceably to assemble, and to petition the Government for a redress of grievances."

O Congresso (e qualquer Poder) fica proibido de criar leis que:
– definam uma religião oficial ou impeçam o livre exercício da crença religiosa;
– limitem o direito à liberdade de expressão ou de imprensa;
– limitem o direito à livre associação pacífica dos cidadãos;
– limitem o direito de o cidadão apresentar petições ao governo se considerar seus diritos agravados.

Assim é num país democrático, num país livre. Não muda: é fundamento. Pesquisem a respeito da batalha do pastor Jerry Falwell contra o pornógrafo, ainda na ativa, Larry Flynt ou vejam o filme O Povo Contra Larry Flynt, de Milos Forman. A fita exagera um tanto, transformando o empresário num paladino da liberdade de expressão. Mas o fato inegável é que a Suprema Corte decidiu que o lixo editorial que ele produzia e produz na revista Hustler não podia e não pode ser censurado, ainda que abrigue um texto ofensivo — como era o caso: ele disse coisas cabeludas sobre a mãe do pastor, que o perseguia. Processar pode? É claro. Tentar arrancar uma indenização milionária pode? É o que mais se faz por lá. Mas censurar não pode.

O TSE está renunciando a seu papel de juizado das eleições para se transformar num tribunal de censura, que, ademais, legisla também — e do modo como lhe dá na telha. Com base em que texto legal ele decidiu que sites, blogs e páginas de relacionamento estão subordinados à mesma legislação da TV e do rádio? Quer dizer que a Folha On Line não poderá reproduzir artigos opinativos publicados pela Folha? Idem para o Estadão On Line? O mesmo para a VEJA.com? Folha, Estadão e VEJA são agora concessões?

Eu já considero descabidas as restrições impostas ao rádio e à TV. O único critério de um programa jornalístico deve ser o interesse jornalístico. Ponto. O fato de ser uma concessão pública não deveria interferir no critério. Mas vá lá… Muitos alegam que emissoras de rádio e TV são distribuídas segundo a lógica do compadrio e acabam caindo na mão de políticos, que as usam para atacar adversários e se eleger. Tá, até posso conceder. Embora caiba uma observação óbvia: fosse a Justiça ágil para julgar, o abuso poderia ser punido sem precisar apelar à camisa-de-força. A matéria, no entanto, é delicada.

Mas por que a Internet? Não ocorre aos senhores magistrados que liberar, nesse caso, é melhor do que proibir? Explico: se um candidato ou partido não gostam da página A ou B, nada os impede de criar a sua própria. Mal saímos de uma refrega em que promotores eleitorais e um juiz consideraram “propaganda antecipada” entrevistas jornalísticas, e já há um novo caso na praça, este ainda mais escandaloso. Se um brasileiro decide criar uma página chamada “Eu odeio a Marta”, o que impede o petista de ter a sua “Eu odeio o Kassab e o Alckmin”? Ademais, a Constituição brasileira protege a liberdade de expressão e proíbe a censura prévia.

Algo de estranho se passa no TSE. Há eleições a cada dois anos no Brasil. Durante um bom tempo, a Justiça Eleitoral comandou a modernização do país nessa área, com a universalização das urnas eletrônicas. Era um fator de progresso. De uns tempos para cá, no entanto, cismou de ser Executivo, Legislativo e Judiciário na base da penada. E tem metido os pés pelas mãos.

Ora, eleições são mesmo períodos de celebração democrática, e o livre exercício da informação e da opinião — o Código Penal está aí com a sua impressionante lavra de crimes definidos — só pode contribuir para que o eleitor faça a sua escolha com mais critérios. Mas não para o tribunal: estamos diante da velha mania de tratar a população com menor de idade ou como idiota.

Parece que os togados querem nos proteger das más influências para que nosso voto seja mesmo consciente, sem qualquer manipulação. Já disse e repito: para alguns ministros do TSE, o melhor ambiente para se realizar uma eleição seria uma ditadura. Assim ficaríamos todos preservados das tentações da democracia. Essa gente foi longe demais.

PS: Há muito tempo, escrevi aqui que a perseguição das esquerdas ao que elas chamam “mídia”— trabalho que conta com a ajuda de alguns vagabundos e venais que, infelizmente, são também jornalistas — não seria inócua. E, como se vê, não é. Também alguns magistrados estão começando a achar que a gente atrapalha a democracia. Eleição boa, para essa turma, se daria, assim, em Pyongyang, a capital da Coréia do Norte. Kim Jong-Il, o Estimado Líder, saberia como manter a nossa cabeça livre de más influências.

La Raíz del Mal sigue Intacta

 

Javier Darío Restrepo

El taxista se detuvo, abrió la puerta y sin más, como si reanudara una conversación interrumpida, dijo: "Liberaron a Ingrid, ¿sabía?". Y durante el viaje aprovechó los comerciales de la radio para comentar. En la calle veía a la gente en pequeños grupos que oían la radio con caras de felicidad. El portero abrió mecánicamente la puerta sin prestarme atención porque estaba pendiente de un pequeño televisor en donde se contaba la historia. Y las personas que iba a encontrar no tuvieron otro tema. Había una alegría colectiva, la solidaridad con los recién liberados era contagiosa. La de ayer fue, pues, una jornada de alegre solidaridad.

Era una alegría más pura que la de un campeonato, o que la de un triunfo político; más pura, incluso, que la de aquel día en que celebramos el premio Nobel de Gabriel García Márquez. Esta de ayer fue la alegría por el bien ajeno, por la vida y la libertad de unos seres humanos. Pero esas celebraciones alegres operan como un anestésico e insensibilizan para otros datos. Es como si no dejaran ver el otro lado de la alegría.

Ayer mismo había la noticia de un bebé de Tulúa que había sido secuestrado, y en el último mes han aparecido réplicas del caso de aquella mujer aprisionada y violada por su propio padre. Son historias parecidas a la de los secuestrados por las FARC porque en ellas aparece la misma manifestación del mal: el ser humano convertido en medio para un fin. Para las FARC, los secuestrados son medios para obtener provechos económicos o políticos; el secuestrador del bebé lo hizo para negociarlo, y el secuestrador de su hija la convirtió en instrumento de placer. Pero la enumeración no termina ahí. El taxista se volvió para preguntarme: "¿A quién le servirá políticamente esta liberación?". Antes había especulado sobre el monto de la recompensa para el infiltrado, recordando los millones pagados al que entregó la mano amputada del jefe guerrillero y del informante que sirvió para la localización del campamento de Raúl Reyes.

El mismo no se daba cuenta de que, en su comprensión de las cosas, el fin de las acciones no son los seres humanos. Estos siempre están subordinados a un fin, y al comentar la liberación que nos alegraba, operaba la misma perversa lógica: el dinero como fin y la libertad de las personas como un medio. Entre el dinero de la corrupción y el que persuade informantes o infiltrados, estamos construyendo un imperio en el que el dinero es el gran motor de las acciones, aún de las que parecen más nobles.

A los narcotraficantes la sociedad les reprocha su febril e inescrupulosa búsqueda del dinero, el hecho de haberlo convertido en la razón de ser de sus vidas, pero las diferencias con ellos no son tan grandes, el razonamiento es el mismo: todo vale con tal de obtener un fin. Se secuestra a los seres humanos, se los libera, se los exhibe entre aplausos, con un fin: dinero, éxito político, consolidación de un gobierno. Mientras el ser humano se use como medio para cualquier fin, estará abierta la puerta por donde entran todas las opresiones. Me alegra la liberación de Ingrid y de los demás, pero me apesadumbra saber que la raiz del mal sigue intacta.

Em liberdade! (5)

 
 
Comentário de Fernando S no post “Em liberdade!”

O que parece ter começado já a incomodar muitos dos “politicamente correctos”, mesmo dos mais “moderados” e menos enfeudados aos PCs e às extrema-esquerdas, é:

 

1. Ingrid Bettencourt e os outros reféns foram liberados través de uma operação militar por ordem do “reaccionario” e “bushista” presidente colombiano. Não foram as FARC.

 

Não foi uma resposta “humanista” das FARC ao movimento internacional de apoio a que excepcionalmente (no caso de reféns detidos por organizações com uma aurea de esquerda e uma ideologia marxista) aderiram grande parte das esquerdas francesa e europeias. De resto, este apoio invulgar tem muito mais a ver com o facto de Ingrid Bettencourt ser conhecida como uma militante ecologista e critica dos governos “direitistas” da Colombia do que com a circonstancia de ela também ter a nacionalidade francesa.

Não foi o resultado de um processo negocial em que governo colombiano, pressionado pela “comunidade internacional”, teria sido obrigar a aceitar as principais exigencias das FARC, permitindo salvar a face desta organização e dar-lhe um novo folego politico (como aconteceu varias vezes no passado de cada vez que o governo colombiano aceitou levantar a pressão militar e negociar sem condições).

2. À descida do avião que a trouxe de 6 anos de cativeiro, a “sobrevivente” Ingrid Bettencourt não deu sinais de sofrer do sindroma de Estocolmo, não disse bem dos seus raptores, não se mostrou decidida a retomar a bandeira de luta contra o “sistema”. Fez um discurso surpreendente para uma militante de esquerda. Agradeceu a Deus e fez uma série de reflexões politicamente incorrectas. Elogiou o exército colombiano, congratulou-se com a reeleição do Presidente Uribe e disse que o apoia, avisou os esquerdistas Hugo Chavez e Rafael Correa para não interferirem na democracia colombiana, etc, etc.

Por enquanto ainda estão todos meio atordoados com a rapidez e o cariz dos acontecimentos e das declarações de Ingrid Bettencourt. Mas já se nota alguma perplexidade e algum embraraço. Não deve faltar muito para começar uma campanha sistemática e bem oleada de destruição da imagem da “sobrevivente”!!