O Brasil e as relações perigosas com os terroristas: cai a máscara

 

Por Reinaldo Azevedo | 06:45

 

Às 22h18 de quarta-feira, dia da libertação de Ingrid Betancourt, escrevi aqui o que segue em azul:

 

A reação do governo brasileiro só não foi mais entristecida do que a do equatoriano, que, na verdade, lamentou o resgate. Segundo os vagabundos filoterroristas, deveria ter havido uma negociação para uma solução total do problema. Ou em outras palavras: primeiro o governo colombiano cede às exigências dos terroristas, e estes liberam os reféns depois. Lixo!

 

Mas a que se deve esse tom meio blasé do Brasil? Celso Amorim chegou a dizer que o sucesso da operação demonstra que as Farc estão enfraquecidas — mais um pouco, ele pergunta: “Só isso?”

 

Vamos ver. Nos meios diplomáticos brasileiros, dá-se como certo que Alfono Cano, o novo chefão da guerrilha, pretendia entregar Ingrid Bettancourt ao… presidente Lula. Se havia negociações entre representantes do governo brasileiro e o terror, isso não se sabe. A lógica indica que sim, não é? Ou como seria feita a entrega?

O que quer que estivesse em curso dava-se certamente ao arrepio do governo da Colômbia. Como se vê, todo mundo queria tirar uma casquinha dos reféns para exibir seu lado pacificador.

 

Uribe acabou com a alegria e a megalomania de um monte de espertalhões.

 

Voltei
Leiam trecho da reportagem de hoje de Marcelo Ninio na Folha de hoje: “Recebida como heroína em Paris, em meio a especulações e dúvidas sobre as circunstâncias de sua libertação, a política colombiana Ingrid Betancourt disse ontem, em entrevista no Palácio do Eliseu, que o governo brasileiro se ofereceu como um canal de comunicação com as Forças Armadas Revolucionárias Colombianas (Farc).” (íntegra aqui).

 

E o que diz Marco Aurélio Garcia, o nosso enviado especial ao coração das trevas? Também na Folha: “Apesar das declarações da ex-refém das Farc Ingrid Betancourt, o governo brasileiro negou ontem contatos com a guerrilha. Mas, segundo o assessor para assuntos internacionais da Presidência, Marco Aurélio Garcia, houve ‘muitas negociações discretas’. O Itamaraty, por meio da assessoria, disse que o governo brasileiro ofereceu ajuda para que houvesse a libertação dos seqüestrados e um diálogo entre as partes. Lembrou, inclusive, que foi oferecido o território brasileiro para que as negociações ocorressem. Mas, outra vez, o Itamaraty negou ter contato com o grupo guerrilheiro. Marco Aurélio, que não quis fazer ontem novos comentários sobre o tema, dissera na véspera, em entrevista à TV Brasil, que o governo brasileiro não tem relações com as Farc. Porém afirmou à emissora que o país sempre interveio nessa situação quando demandado" (leia mais aqui).

 

Como é que é?

O que seriam “negociações discretas”? Considerando que elas não se davam — E NÃO SE DAVAM — com o governo da Colômbia, então só pode ter sido com o outro lado: as Farc. Marco Aurélio diz que o Brasil tinha uma dificuldade para atuar em favor da libertação de Ingrid que outros países envolvidos com a negociação nunca tiveram: ausência de contato com os terroristas.

 

É pra rir? O Brasil é o país que dá asilo a Olivério Medina, um dos dirigentes da organização terrorista no exterior. O homem mora em Brasília. A intimidade do governo com ele é tal, que a ministra Dilma Rousseff solicitou PESSOALMENTE ao governo do Paraná a transferência de sua mulher para a Secretaria da Pesca, cujo titular e aquele ministro de aparelho nos dentes…

 

Sou levado a concluir que a turma do Iramaraty que dava como certas as negociações — seriam as tais “discretas”? — para Lula aparecer como o libertar de Ingrid estava com a razão. E isso explicaria aquele tom quase melancólico da nota divulgava pela Secretaria de Comunicação. E insisto: Franklin Martins é do tipo que sabe emprestar estilo a textos sobre seqüestro. Poderia ter feito algo muito melhor. Aí deve estar o motivo da preguiça de Lula em falar com Álvaro Uribe. O colombiano lhe tirou a chance de viver "o" grande momento.

 

O que esperar de uma país que, dado um evento tão extraordinário, afirma esperar a pacificação do vizinho, como se a Colômbia legal devesse negociar com narcoterroristas? O caso aconteceu debaixo do nariz de Lula, no continente que o Brasil tem a ambição de liderar. E o país se quedou inerme, sendo mero caudatário, por um longo período, das escolhas feitas por um delinqüente como Hugo Chávez.

 

Quando resolveu ter alguma idéia, compareceu com a ridícula proposta de um conselho de defesa sul-americana com o propósito de tentar se meter nas relações entre Bogotá e Washington. Ora, não custa lembrar que foi o Plano Colômbia, financiado pelos EUA, que quebrou a espinha da guerrilha.

 

Mais um vexame na conta de Celso Amorim, que ele tentará vender como um formidável sucesso — no que alguns trouxas acreditarão.

 

Cai a máscara. Jamais diga: "Eles não seriam irresponsáveis o bastante". Porque eles sempre serão.

 

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Sobre a Lei Seca

A estratégia não é nova. Pelo contrário, pode-se dizer que é já do entreguerras, com todos os posteriores aprimoramentos e sofisticações os mais esdrúxulos e pedantes que lhe devotaram frankfurtianos et caterva. Pensaram eles: se não podemos vencê-los, corrompamo-los. É, pois, sobre corrupção dos princípios que venho falar.

 

Em diferentes momentos foi aplicada; bem sucedida nuns, nem tanto noutros, mas de alguma forma sempre vitoriosa, dada sua perpetuação e seu poder quase hipnótico.

 

É do uso, ou mau uso, dos instrumentos democráticos que falo. Usar a democracia para acabar com o Estado Liberal foi e, infelizmente, continua sendo a estratégia mais bem sucedida – para os padrões deles – de imposição do único totalitarismo que, mesmo titular da história mais nefasta, por paradoxal que seja, chegou vivo e bem disposto no Ocidente do século XXI, a ponto de não só ousar, mas se orgulhar de dizer seu nome, o que me dispensa de fazê-lo.

 

Foi assim no mal sucedido – para eles – referendo das armas; foi assim na proibição dos bingos; foi, agora há pouco, na bem sucedida instrumentalização de homens desesperados que levou à permissão do assassínio de homens indefesos, pelo Supremo Tribunal Federal. É nas famigeradas leis “anti-homofóbicas”; está sendo no racialismo oficial e na assim chamada lei seca.

 

Toda essa ordenação legiferante muito se assemelha em princípio. Em princípio, o que parece é ordenação e não deixa de sê-lo: toda a legislação acima citada veio à luz como se do espírito das luzes nascesse, e se ordena para, pela corrupção dos princípios, materializar o reinado das trevas.

 

Olhando para o passado com algum cuidado, não se pode dizer que o Brasil não estivesse preparado para isso. O Brasil lhes pedia isso. Sendo a República instituída a partir de um golpe de estado, às forças armadas sobrou o antigo papel de poder moderador, como retrata João Camilo de Oliveira Torres em Interpretação da Realidade Brasileira. Tornando-se essas dependentes do Executivo, este lhes usurpou seu papel, tornando-se os presidentes da República desde então nossos “Defensores Perpétuos” – não é de admirar que das vezes nas quais o Executivo se mostrou “forte” tenha granjeado tão pronta admiração.

 

E é esta submissão a um Executivo “forte” que está a corromper a nossa democracia. Por paradoxal que outra vez pareça, sempre que consultado, não deixa o povo de se mostrar o último guardião da liberdade, como no caso do referendo, pois foi o Estado que criou o povo – socorro-me outra vez de Oliveira Torres –, mas o Estado que o criou foi o Estado Liberal.

 

A lei seca é apenas o mais recente e não o último dos instrumentos que os novos bárbaros nos impõem para alcançar seus fins últimos, quais sejam, a deterioração da liberdade sob a implantação de uma falsa fraternidade à Rousseau. Fraternidade disfarçada, pois, não sendo esta possível em uma democracia continental, fatalmente o remédio para seus próprios males já esteja dado: mais fraternidade – a dispersão do Estado-nação em uma comunidade de nações.

 

O problema é que, sendo o povo fruto do Estado, e estando este a corromper-se, aquele aos poucos lhe queira seguir os passos de pai, “chegar à idade da razão”, e não mais lhe oferecer uma sadia resistência juvenil. Não tendo em quem se espelhar, espelha-se nos mais próximos e péssimos exemplos paternos.

 

Digo isto porque a tal lei seca e aquelas outras corrompem princípios: se se obriga o cidadão a produzir provas contra si, porque não lhe pedir que às fartas as produza contra outrem? Por que não lhe obrigar a produzir, então, pequenas provas de sangue – do seu e do alheio? Tudo muito lógico, tudo muito natural, ou tudo um tanto louco? Não se chamou loucura à ciência que, à sua época – nem tanto tempo assim –, foi permitida reproduzir-nos por meios tortos e que hoje, pelas artes que se viu, nos permite nos destruirmos.

 

Instrumentalizaram-nos para que, instrumentos que sejamos, esqueça-mo-nos de nós mesmos. Que seja, sejamos os mesmos, para não nos tornarmos uma só e mesma coisa.