O melhor entrevistado

 

Está em viagem, mas responderá à entrevista quando chegar a casa, em Lisboa – avisa. Menos de duas horas depois, é ele quem afirma que as respostas não são muito inspiradoras. “É o que dá a pressão”, desculpa-se. João Pereira Coutinho, portuense e mordaz colunista do Expresso e da Folha de S. Paulo, 30 anos, confessa-se por e-mail.

 
É verdade que comprou o carro da manequim Mariza Cruz só por ser dela?
Mentira. Comprei o carro da Marisa Cruz porque estava à espera que ela viesse como brinde. Fui roubado.

Com raras excepções, porque é que só escreve bem do Brasil na ‘Folha de S. Paulo’ e mal de Portugal no ‘Expresso’?
Porque a ‘Folha’ paga melhor. Quando o ‘Expresso’ subir a parada, começo a elogiar Portugal e os portugueses semana sim, semana sim.

É melhor tratado lá, ou cá desde que começou a escrever para lá?
Sou tratado da mesma forma. Com a única excepção de que os insultos, do lado de lá, vêm com sotaque. Os elogios também.
 
Portugal é um país de deslumbrados?
Já vi pior. O Zimbabué, por exemplo.

Escrever dá-lhe mais prazer do que quando tocava piano nos bares?
A escrita não é uma questão de prazer; é uma questão de trabalho. O mesmo com o piano e os bares.

O processo que Manuel Seabra, vereador da Câmara de Matosinhos, moveu contra si quando tinha pouco mais de 20 anos, chateou-o ou deixou-o vaidoso?
Nem uma coisa nem outra. Mas sempre disse que estas coisas deviam ser tratadas em duelo.

Era capaz de viver no Porto outra vez?
Eu ainda vivo parte dos meus dias em Leça da Palmeira. A melhor parte, aliás.

A sua insolência nas crónicas é postiça ou é sempre assim?
Totalmente postiça. Como pessoa, sou uma doçura sem igual.

Vê-se como uma espécie de gato fedorento em versão intelectual?
Os “Gatos Fedorentos” são quatro intelectuais. Quando muito, sou uma versão fedorenta deles.

Que cronista gostaria de abolir da imprensa portuguesa?
O Alberto Gonçalves, do DN e da Sábado. Demasiado bom para ser verdade.

Nunca cita o seu primeiro livro nos dados biográficos. Porquê?
Problemas de memória.

Fala sozinho com frequência?
Sempre que posso. Mas nem sempre estou disposto a ouvir-me, muito menos a responder-me.

Não falar/não ouvir é mais nefasto na vida pessoal ou na esfera política?
Depende do interlocutor.

É sensível à crise dos 30?
Não, porque a minha precocidade obrigou-me a vivê-la quando tinha 20. Agora estou na crise dos 40. Não é mau de todo.

Imagino-o com gostos de adulto desde pequeno: charutos, whisky, hotéis, aviões, mulheres mais velhas. Quase como se tivesse passado a infância toda só à espera de crescer. Foi assim?
Sem dúvida. Aliás, ainda continuo à espera.

Alguma vez foi a um festival de Verão?
Uma vez, por engano. Temi que me cozinhassem.

Era capaz de ir ao cinema com Paulo Portas?
Sim, mas só se ele pagasse as pipocas.

“Treinadores apaixonados na cama tendem a incutir nos atletas uma vontade orgásmica de marcar”. Scolari parece-lhe apaixonado?
Nem por isso. Regular. Daí os resultados. Regulares.

Que biografia portuguesa gostaria que fosse publicada neste momento?
A minha. Mas escrita por um mentiroso profissional.

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