O general, o Morro da Providência e o “bispo” Crivella

Diogo Mainardi
25 de junho de 2008

 

A Folha de S. Paulo perguntou ao general Enzo Peri, comandante do Exército, por que ele decidiu apoiar o projeto Cimento Social, do bispo Crivella. Ele respondeu o seguinte:

"O nosso Palácio Duque de Caxias fica junto ao Morro da Providência. A situação do morro e a ação dos traficantes se refletiam na vizinhança. Isso era motivo de preocupação. Vimos o projeto como uma oportunidade".

Que o bispo Crivella ou Lula associem a reforma da fachada de alguns casebres ao combate contra os traficantes é mais do que natural. Que o comandante do Exército diga o mesmo é sinal de que a gente se danou de vez. De que até as Forças Armadas foram contaminadas pela idéia apalermada segundo a qual o crime é apenas uma forma extrema de justiça social: se os traficantes torturam e matam, é porque em suas casas há frestas nas paredes e goteiras nos tetos. Nesse caso, é melhor dispensar todos os soldados e contratar pedreiros em seu lugar. O general Enzo Peri pode se transformar no maior mestre-de-obras do país, combatendo os traficantes com seu poderoso exército de paraíbas, armados com pás de cal e telhas Brasilit.

 

No mesmo dia em que os soldados do general Enzo Peri foram presos por participar da chacina contra moradores do morro carioca, Lula se reuniu com quarenta intelectuais petistas. Li o nome de todos aqueles que compareceram ao encontro e, pelas minhas contas, os quarenta intelectuais petistas eram, na realidade, dezenove intelectuais petistas. Esse foi o único acerto de Lula: ele desmoralizou a intelectualidade petista. Só sobraram os mais gagás, que representam os tempos passados, uma espécie de ala das baianas da esquerda, os grandes responsáveis pelo esclerosamento da universidade brasileira. Lula passou 3 horas e meia com eles, discorrendo sobre o PAC, sobre Hugo Chávez, sobre a TV Pública, sobre osteoporose. Ninguém mencionou os fatos do Rio de Janeiro. Ninguém abordou o tema da criminalidade. Porque nem Lula, nem os dezenove intelectuais petistas enxergam os 50 mil assassinatos por ano como um problema, mas sim como o sintoma de outro problema: a pobreza.

 

Ainda naquele dia, o ministro da Defesa italiano anunciou um plano para empregar as Forças Armadas na segurança pública de seu país. Essa medida já foi adotada no passado. Depois que a máfia assassinou os juízes Falcone e Borsellino, 150 mil soldados ocuparam a Sicilia. A operação durou de 1992 a 1998. Nesse período, alguns dos principais bandos mafiosos foram desmantelados, e Totò Riina, o chefe de todos os chefes, mandante dos atentados contra os juízes, foi preso. A máfia perdeu terreno e acabou renunciando à sua tática terrorista. Atualmente, a Itália tem 1 homicídio para cada cem mil habitantes. O Rio de Janeiro tem 50 vezes mais. A Itália usa os militares para combater a criminalidade. Nós os usamos para tapar goteiras.

Anúncios